Reportagem

Em nove meses de 2021, Venâncio acumula mais crimes do que em todo o ano de 2020

A alta da criminalidade na Capital do Chimarrão destoa dos números gerais do Estado, que tiveram elevação, mas em patamar bem menos acentuado

Redação

Publicado segunda-feira, 15/11/2021, às 20:30

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Bastaram nove meses deste ano de 2021 para que Venâncio Aires ultrapassasse o número total de crimes de 2020. A alta da criminalidade na Capital do Chimarrão destoa dos números gerais do Estado, que tiveram elevação, mas em patamar bem menos acentuado.

De janeiro a setembro deste ano, a Capital do Chimarrão já havia contabilizado 1.123 crimes, superando os 1.113 registrados ao longo de todo o ano de 2020.

De janeiro a outubro de 2021, Venâncio Aires teve 1.221 crimes consumados, contra 904 no mesmo período do ano passado. A alta é de 35%. Já o Rio Grande do Sul contabilizou 223,3 mil crimes de janeiro a outubro de 2020 e 234,3 mil no mesmo intervalo de 2021. A alta é de 5%. Todos os dados desta reportagem são da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP).

Estabilidade

No que diz respeito aos crimes violentos, praticados mediante ameaça ou agressão, Venâncio Aires não teve mudança significativa de um ano para o outro. Foram 88 ocorrências deste tipo em 2020 e 90 em 2021, levando-se em conta o período de janeiro a outubro. Por sua vez, o RS teve queda acentuada deste tipo de ocorrência violenta, de 48.088 para 38.592, uma redução de 20%. Entenda-se por crimes violentos os homicídios, latrocínios e roubos.

Crimes de baixo castigo

Os maiores aumentos na Capital do Chimarrão foram constatados nos crimes sem emprego de violência ou ameaça. São aqueles em que o suspeito, quando é detido, costuma passar poucas horas na delegacia e acaba sendo liberado. É o caso de furtos, tráfico de drogas e golpes, por exemplo.

Até outubro de 2021 foram registrados 616 furtos em Venâncio, contra 441 no ano anterior, alta de 40%. Os crimes relacionados às drogas, como posse e tráfico de entorpecentes, subiram 24% (de 123 para 153). Os furtos de veículos saltaram 43% (de 21 para 30).

Mas nada supera a produtividade dos estelionatários que, neste ano, já cometeram 280 golpes em Venâncio Aires, contra 178 em 2020 (alta de 57%).

Promessas não cumpridas

A Capital do Chimarrão tem um déficit de mais de 50% em relação ao número ideal de policiais militares. Manter um efetivo adequado de PMs, além de construir uma nova Delegacia de Polícia, teriam sido promessas do governo estadual da época, como contrapartidas mínimas pela instalação da Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva).

A prisão, inaugurada em 2014, serviu para o governo estadual desafogar o Presídio Central, de onde foram transferidos centenas de presos. Mas não serviu para aumentar ou equipar as forças de segurança de Venâncio.

Até hoje as supostas promessas não foram cumpridas, apesar das frequentes reuniões de políticos locais, de situação ou oposição, no Palácio Piratini, em busca de reforços para a Segurança Pública. O último pedido é transformar a Companhia da Brigada Militar em Batalhão, uma estrutura militar teoricamente melhor aparelhada e com mais policiais.

A Peva, que abriga mais de 500 apenados, exige atenção das forças policiais, seja em ações diretas para inibir arremesso de drogas e celulares para dentro da penitenciária ou tentativas de libertação de presos – como ocorreu neste ano –, seja no combate aos crimes que têm relação com os presidiários, como os estelionatos comandados de dentro das celas.

Uma rede de golpistas deste tipo, que agia na região, foi presa esta semana e tinha no comando pelo menos seis presidiários da Peva.

Foco em outros municípios

Enquanto Venâncio Aires tenta reforços, cidades menores e com taxas de criminalidade perto de zero recebem melhorias e mais policiais, como é o caso de Mato Leitão e Arroio do Tigre.

Por sua vez, Lajeado é uma das 23 cidades gaúchas quem têm monitoramento intensivo da Secretaria de Segurança Pública (SSP).

Esta semana, a SSP comemorou o fato de Lajeado, onde há batalhão da Brigada, não ter registrado nenhum assassinato nos indicadores de outubro. Rio Pardo e Santa Cruz do Sul também são sedes de batalhões e, segundo dados do governo estadual divulgados na última quinta-feira (11), estão entre as dez cidades do RS com maior queda no número de homicídios, no comparativo de janeiro a outubro de 2020 com o mesmo período de 2021. Santa Cruz está em 8º e Rio Pardo em 9º no ranking.

Trânsito e Defesa Civil

No papel, Venâncio Aires conta com uma Secretaria Municipal de Segurança Pública desde 2019. A estrutura abriga o Departamento de Trânsito e a Defesa Civil, órgãos que já existiam antes. No ano de sua criação, críticos da iniciativa diziam que a estrutura serviria como ‘cabide de empregos’ e não teria resultados práticos. Até hoje não foi criada a Guarda Municipal.

A prefeitura foi questionada pela reportagem sobre quais ações concretas de combate à criminalidade são executadas pela Secretaria Municipal de Segurança, mas não respondeu.

Não é necessário que uma cidade tenha Secretaria de Segurança ou Guarda Municipal para colaborar em operações de rua da Brigada Militar. O Portal Significa analisou os informativos para a imprensa do Comando Regional da Brigada no Vale do Rio Pardo dos últimos dois meses e apurou que o Departamento de Trânsito de Cachoeira do Sul, cidade que não tem Secretaria de Segurança, colaborou com ao menos três operações da Brigada, a última delas na madrugada deste domingo (14).

Santa Cruz do Sul, por outro lado, tem Guarda Municipal e não consta em nenhuma divulgação de ação conjunta com a Brigada Militar da cidade nos últimos dois meses. Por outro lado, a Guarda atua em eventos e protege estruturas públicas, como Oktoberfest e Lago Dourado, respectivamente.

Silêncio da prefeitura

A reportagem tentou obter respostas do prefeito de Venâncio Aires, Jarbas da Rosa (PDT), que acumula o cargo de secretário de Segurança, sobre o que está sendo feito na esfera municipal para combater a elevação dos crimes na Capital do Chimarrão.

O chefe do Executivo foi questionado por que Venâncio tem uma Secretaria de Segurança há tanto tempo e ainda não possui Guarda Municipal, se há projeto para criação da Guarda e, se houver, quando ela deve ser implantada. O governo municipal preferiu não responder.

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